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Hermanos censurados

Incomodada com críticas feitas pelo principal jornal da Argentina, a presidente Cristina Kirchner impõe represálias à publicação

Hermanos censurados

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SILÊNCIO FORÇADO
Clarín saiu com capa em branco para protestar contra censura

No lugar das notícias mais importantes do dia, uma capa em branco. Foi assim que a edição da segunda-feira 28 do jornal argentino “Clarín” se apresentou nas bancas do país. A ação, batizada de “silêncio forçado”, foi um protesto contra mais um capítulo da queda de braço que vem sendo travada desde 2009 entre a empresa que controla o jornal e o governo da presidente Cristina Kirchner. No domingo 27, sindicalistas ligados ao governo fizeram um piquete – o quinto em cinco meses – em frente à gráfica do jornal e impediram a distribuição do “Clarín” e “Olé”, publicação esportiva que pertence ao mesmo grupo. Naquela edição, o principal noticioso da Argentina trazia uma reportagem investigativa sobre Hugo Moyano, secretário da Central Geral do Trabalho e líder sindical acusado de corrupção.

A censura imposta ao “Clarín” se deve a uma série de reportagens publicadas nas últimas semanas pelo jornal, que tem feito oposição sistemática à administração de Cristina Kirchner. Em resposta, a presidente feriu um dos mais caros preceitos da democracia: a liberdade de expressão. As represálias do governo chegaram ao extremo de atingir a vida privada dos donos do jornal. Um processo – claramente infundado – feito por advogados ligados à presidente acusou a diretora do grupo Clarín, Ernestina Herrera de Noble, de 85 anos, por sequestro dos próprios filhos que adotou de um casal que desapareceu durante a ditadura militar. O governo também imputa à publicação fraudes com fundos de pensão (o que é negado pelos advogados do jornal) e cancelou a licença concedida à Fibertel, do grupo Clarín, para atuar como prestadora de serviços de internet. Para os opositores e boa parte da população, a censura é intolerável. Apesar do impacto que o caso pode provocar na popularidade da presidente, o governo tem se esquivado. Convocada para prestar esclarecimentos, a ministra argentina de Segurança, Nilda Garré, não se apresentou à Câmara de Deputados. O caso está longe de terminar.

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“Sofremos um ataque à liberdade de expressão”
Em entrevista exclusiva, Ricardo Roa (foto abaixo), diretor editorial do grupo Clarín, fala sobre a censura e as retaliações enfrentadas pelo jornal:

ISTOÉ – Como está a situação do jornal?
Ricardo Roa – Normalizada, mas não podemos descartar que no futuro ocorrerão novos bloqueios, porque este foi mais um ato de uma série de ataques à liberdade de expressão.

ISTOÉ – Como os jornalistas do grupo Clarín reagiram ao caso?
Roa – O governo e os sindicatos oficiais lançaram no ano passado uma campanha de as­sédio que criou rejeição em muitos jornalistas.

ISTOÉ – Existe apoio ao “Clarín”?
Roa – Salvo nos meios sustentados pelo governo, há a consciência de que a ofensiva está, sim, muito concentrada no “Clarín”, por sua importância e contra todos os meios independentes.

ISTOÉ – A circulação do jornal aumentou depois do caso?
Roa – Houve um aumento de 10% nas vendas.

ISTOÉ – O que esperar do futuro?
Roa – O kirchnerismo lançou, desde que chegou ao poder, uma política de confrontação destinada a polarizar a sociedade. Cristina Kirchner tem um discurso mais suave que seu marido, mas a atitude dos grupos aliados ao governo continua orientada para a confrontação. A reação dos leitores mostra a rejeição ao autoritarismo e às pressões contra a imprensa e uma adesão à liberdade de expressão.

Hélio Gomes