Cultura

Glamour acima de tudo

Na era do livro digital, editoras investem em design gráfico arrojado, em busca dos leitores que preferem as obras em papel

Glamour acima de tudo

chamada.jpg 

O avanço dos livros digitais está provocando um fenômeno que, à primeira vista, pode parecer retrógrado, mas faz todo sentido no estágio de segmentação do mercado atual: é cada vez maior o número de editoras que passaram a investir em acabamentos gráficos luxuosos ou diferenciados de suas publicações. Existem aquelas que apostam numa espécie de livro “vintage”, caso da portuguesa Babel, que inaugurou seu braço brasileiro com edições “clonadas” de obras clássicas. Ou seja: idênticas às originais.

Os primeiros lançamentos a chegar às livrarias são “Indice das Cousas Mais Notáveis”, de Padre Antônio Vieira; “Mensagens”, de Fernando Pessoa; e “Espumas Fluctuantes”, de Castro Alves. Numa linha mais inventiva, visando porém o mesmo tipo de leitor, a Cosac Naify leva adiante o selo Coleção Particular, em que o design da obra “interpreta” o conteúdo do texto. “Bartleby, o Escrivão”, de Herman Melville, por exemplo, traz páginas que precisam ser picotadas pelo comprador e “Fera na Selva”, de Henry James, tem capa que se desdobra num pôster. O mais recente exemplar da série, “Museu do Romance da Eterna”, de Macedonio Fernández, é encadernado de forma a sugerir uma publicação rudimentar e foi impresso num tipo de papel que envelhece rápido. “São projetos que pressupõem um leitor interessado em experimentações”, diz Elaine Ramos, diretora de arte da Cosac Naify.

A estratégia comporta ousadias como a da Companhia das Letras, que acaba de lançar “As Entrevistas da Paris Review” com três mil capas diferentes. Na mesma linha, a carioca Flâneur estreou no mercado com uma tiragem de 600 exemplares de “Ninguém Muda Ninguém”, do desenhista André Dahmer, que traz capas ilustradas à mão pelo autor. “Em tempos de produção em massa, nada mais natural do que a valorização do que é artesanal, caseiro e único”, diz ele. Para os editores, contudo, não se trata de uma tentativa desesperada de dar sobrevida ao livro físico.

“A notícia da morte da obra impressa é exagerada. Um suporte digital, mesmo que consiga reproduzir na perfeição um livro, nunca poderá ocupar o seu lugar”, diz o empresário português Paulo Teixeira Pinto, proprietário da Babel. As edições em fac-símile da editora impressionam pela fidelidade – “Mensagem”, por exemplo, lançado em 1934, tem encadernação em tecido, papel e tinta idênticos aos do volume original. Para Renato Amado, fundador da Flâneur, apesar dos e-books não serem uma ameaça à sobrevivência das editoras, o caminho é diversificar os projetos gráficos: “Quando o livro digital se popularizar, poucas pessoas comprarão o exemplar físico pelo seu conteúdo. Nesse contexto, o livro em papel terá de ser uma obra de arte.”

img.jpg