Comportamento

O anti-Al Gore

Arnold Schwarzenegger veio à Amazônia, apoiou o etanol brasileiro e encantou. O oposto do ex-vice-presidente americano, que aposta na tática do medo para defender o meio ambiente

O anti-Al Gore

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TRIBO
Ao lado do amigo James Cameron, Schwarzenegger visitou uma aldeia indígena

Na quinta-feira 24, o salão nobre do hotel em Manaus onde se realiza o Fórum Mundial de Sustentabilidade estava lotado. Ao microfone, o empresário e anfitrião João Doria Jr. anuncia: “Senhoras e senhores, o ex-governador da Califórnia Arnold Schwarzenegger.” Distribuindo sorrisos, o convidado entra no palco e começa a desfilar suas ideias para tentar conter a devastação do planeta. A voz que todos conhecem deixa o salão ainda mais cheio e magnetiza a plateia, muito mais seduzida pelo ator do que pelo político. Schwarzenegger sabe disso.

Tanto que permeia a sua fala com referências cinematográficas. Entre um “hasta la vista” e um “I’ll be back”, ele defende suas posições ecológicas com firmeza, mas bom humor. E esse, na avaliação dele, é o maior problema do discurso ambientalista de hoje. “Essa filosofia do Al Gore, baseada no medo e na culpa, não produz resultados. Só faz as pessoas se sentirem mal por ter um carro, viajar de avião ou mergulhar numa banheira.” A alternativa seria montar uma propaganda ambiental mais sexy, que seduzisse em vez de impor e amedrontar. E, diz ele, sem as pessoas mobilizadas, o risco aumenta. “A salvação do planeta nasce das pessoas, de baixo para cima. E não dos governos.”

Ainda no esforço para se mostrar uma alternativa ao rival Al Gore, o republicano Schwarzenegger emite palavras que muitos gostariam de ouvir saindo da boca de outro democrata, o presidente Barack Obama. “Na questão dos combustíveis, o governo americano comete um erro: escolher um vencedor. É o mercado que tem de decidir, e já escolheu o etanol brasileiro.” Aplausos entusiasmados. Com a plateia dominada, ele ganhou lastro para abordar pontos polêmicos. Após o acidente na usina nuclear de Fukushima, no Japão, ganhou força o discurso contra centrais desse tipo. “Pelo contrário. Nós devemos construir usinas atômicas mais seguras, não eliminá-las”, diz o ator. Alicerça a ideia com um único argumento: “Vocês acham que os terremotos com magnitude de 8.9 serão comuns?” A au­diência troca olhares.

Além dos discursos, o ex-governador traz no currículo realizações que reforçam a ideia de que ele não brinca ao defender o ambiente. A Califórnia tinha a meta de usar 30% de energia renovável até 2014. Schwarzenegger, que deixou o governo em janeiro passado, atingiu o objetivo em três anos. Desenvolveu a rodovia do hidrogênio, com postos preparados para abastecer com esse combustível – inclusive o Hummer convertido que ele tem na garagem. Além disso, o Estado está construindo a maior planta de energia solar do planeta. Tudo para combater aquele que, na opinião do ex-governador, é o mais temível inimigo do ambiente. Na hora de nomeá-lo, Schwarzenegger volta a encarnar o ator: “Hasta la vista, combustíveis fósseis.”

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