Brasil

Os limites da amizade

Apesar de todas as juras de amor eterno ao Brasil, Obama não dispensou ao País a mesma atenção que deu aos anseios das demais potências emergentes

Os limites da amizade

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DESCONTRAÇÃO
No Municipal, Obama falou de futebol, mas não tocou na
questão da reforma do Conselho de Segurança da ONU

Em sua primeira visita ao Brasil, o presidente americano, Barack Obama, deu um show de simpatia, bom humor e descontração. Divertiu-se com capoeiristas na favela da Cidade de Deus, na zona oeste do Rio de Janeiro, ameaçou palavras em português em seu discurso no Theatro Municipal, também no Rio e, por fim, brindou os fotógrafos com um passeio familiar pelo maior símbolo brasileiro, a estátua do Cristo Redentor. Mesmo cancelando de última hora o falatório público que prometera na Cinelândia, Obama fez jus à frase que gosta de repetir sempre que encontra alguém do Brasil: “No fundo, também sou um pouco brasileiro.” No quesito entretenimento, pouca gente contesta que a viagem de Obama ao Brasil foi um sucesso absoluto.

O que não ficou exatamente claro dentro do próprio governo brasileiro é se os efeitos práticos da visita de Obama atingiram os resultados que se esperava. Nos dois dias em que esteve no País, o presidente americano tratou de afagar a autoestima nacional, mas avançou pouco em assuntos concretos, como esperava o governo brasileiro. Não houve um apoio explícito aos anseios do Brasil de ocupar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU nem mesmo uma indicação clara de que barreiras não tarifárias aos produtos brasileiras seriam revistas. Em temas espinhosos como esses, Obama foi genérico e pouco objetivo. “Nossas divergências por conta de questões como a intervenção na Líbia impediram que ele fosse além nesses temas”, diz um assessor de Dilma.

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FAMÍLIA
Dilma recebe Obama, a mulher e as filhas em uma visita
descontraída pelos jardins do Palácio da Alvorada

Havia uma expectativa no governo de que Obama trataria o Brasil da mesma forma com que tratou as outras três principais potências emergentes mundiais, Índia, China e Rússia, que, juntamente com o Brasil, compõem os Brics. Obama visitou esses países antes de vir ao Brasil e dispensou tratamento distinto aos anseios e às relações que os Estados Unidos mantêm com eles. O caso mais explícito ocorreu na Índia. Em sua visita ao país em novembro do ano passado, Obama não só defendeu uma reforma no Conselho de Segurança da ONU como também afirmou claramente que espera ver a Índia como uma integrante permanente. Na Rússia, em julho de 2009, Obama fez questão de relembrar o passado conflituoso com o ex-império soviético e prometeu rever programas militares que incomodam o Kremlim, como o escudo antimísseis que a Otan pretendia instalar na Polônia. Quando esteve na China, em novembro de 2009, o presidente americano fez questão de prometer que, mesmo ameaçado pelo avanço chinês, os Estados Unidos não tentariam de nenhuma forma impedir o crescimento econômico do gigante asiático.

Um olhar atento aos discursos proferidos por Obama nas quatro visitas deixa claro que, para a Casa Branca, o Brasil não tem a mesma importância que as outras três potências emergentes. Por mais que Brasil e Estados Unidos tenham proximidades culturais, políticas e étnicas muito maiores que os outros Brics, o fato é que para Washington Brasília é uma peça menor no tabuleiro geopolítico mundial do que Nova Délhi, Moscou e Pequim. E isso é fácil de compreender. Tanto Índia quanto China e Rússia são três potências nucleares encravadas em regiões tensas, onde os interesses americanos não são apenas econômicos, como acontece primordialmente com o Brasil. A Índia, em especial, ocupa uma posição estratégica por estar ao lado do Paquistão e do Afeganistão, os dois maiores pepinos internacionais americanos no momento. Além disso, está encostada na China, hoje o maior adversário dos Estados Unidos na disputa pela hegemonia global. “Índia e China estão em regiões de alta instabilidade e a Rússia é dona do maior arsenal atômico do mundo; é normal que as relações sejam distintas”, diz Matias Spektor, do Centro de Estudos Internacionais da Fundação Getulio Vargas.

Mas, excluindo as expectativas ufanistas que tomaram conta de alguns setores no País, a avaliação, principalmente do Itamaraty, é de que a visita de Obama foi positiva. Principalmente pelo fato de voltar a estreitar as relações com o Brasil, abaladas durante o final do governo Lula. Mas que ninguém se engane. Os laços de amizade entre os dois países têm limites rígidos e as relações bilaterais não serão tão igualitárias como prometeu Obama. Ao menos a médio prazo.

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