Comportamento

O preconceito e a cartilha

Resistências ao kit anti-homofobia criado pelo Ministério da Educação expõem a dificuldade de abordar temas tabus dentro das salas de aula

O preconceito e a cartilha

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DISCUSSÃO
Fotomontagem com o vídeo contra a homofobia do MEC: polêmica

Em 2010, o Brasil assistiu perplexo a uma série de ataques contra homossexuais. No mesmo ano, o Ministério da Educação (MEC) apresentou o projeto de um kit anti-homofobia, que será enviado a professores de seis mil escolas públicas de ensino médio do País. Desenvolvido por meio de um convênio entre o MEC e a organização não governamental Path Finder, a cartilha tem como objetivo conscientizar e orientar os docentes sobre qual postura tomar frente a situações de preconceito sexual entre os alunos. Para ilustrar esses casos, três vídeos foram criados. Em um deles, chamado “Encontrando Bianca”, um estudante conta como se descobriu transexual e narra suas dificuldades de convivência com a família e os colegas. Os outros dois são “Torpedo”, sobre um casal de lésbicas, e “Probabilidade”, que conta a história de um garoto bissexual.

Após ser exibido em dois seminários na Comissão de Direitos Humanos e Minorias e na Comissão de Legislação Participativa na Câmara dos Deputados, em Brasília, o vídeo tornou-se alvo de críticas ferrenhas por parte do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ). Ele afirma que o vídeo apresentado pelo MEC “vai incentivar os adolescentes a se tornarem gays” e que ele tentará “de todas as formas impedir a distribuição do material”. Na opinião de Márcio Marques de Araújo, secretário da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, o parlamentar representa uma voz isolada. “Felizmente, ele não personifica a postura de todos os parlamentares e nem mesmo da maioria.” Por outro lado, é grande o número de membros da sociedade civil que publicam mensagens de apoio às ideias de Bolsonaro em sites como o YouTube, Twitter e blogs.

Para Darcy Raiça, professora da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), discutir comportamentos sexuais é complicado porque envolve o questionamento de valores. “Esses conceitos mudam de acordo com as convicções de cada um, dificultando um consenso”, diz Darcy. “Por outro lado, a escola não pode se omitir de tratar desses assuntos, inclusive os mais polêmicos.” Já Paulo Rennes Ribeiro, coordenador do Núcleo de Estudos da Sexualidade (Nusex) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), acredita que a dificuldade é um reflexo do despreparo dos docentes sobre essa questão. “Nos cursos de graduação para professores, não há uma disciplina sobre educação sexual”, diz Ribeiro. “E mesmo com iniciativas como a do MEC, ainda precisamos investir muito mais na formação desses educadores.” Outro passo que pode ajudar na discussão de temas tabus nas escolas é a integração entre a instituição e a comunidade. “É papel da escola abrir um diálogo com os pais”, diz Darcy.

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