Comportamento

Quero ter a minha pontocom

Por trás do novo boom da internet brasileira estão jovens com menos de 30 anos que saem das faculdades para ser donos dos próprios negócios e faturam alto

Quero ter a minha pontocom

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ARREMATE NA WEB
Foi um ano de trabalho sem pagamento, noites maldormidas, vida social de lado e muito não de investidor até o site de leilões Olho no Click
vingar e faturar os R$ 5 milhões de hoje. “Não é tão fácil quanto parece, mas é emocionante”, diz Guilherme
Pizzini (à frente), 27 anos, com os sócios Rodrigo, Arthur e Sylvio (da esq. para a dir.)

Guilherme contava sete anos de uma sólida carreira na indústria farmacêutica. Marcus era consultor de novas empresas. Heitor estava desgostoso com a carreira publicitária. Os três não se conhecem, mas têm muito em comum. São jovens, solteiros, paulistas, formados por universidades de alto nível e com cursos no Exterior. E sempre sonharam em ter um negócio próprio. A oportunidade deles, e de mais centenas de jovens com perfis similares, aconteceu graças à internet. Hoje, é febre ter um negócio “.com”. Prova disso é que, em 2010, o chamado e-commerce cresceu 40%, segundo o E-bit, empresa que monitora o setor. O número, no entanto, retrata apenas as companhias que fazem vendas online. O crescimento é bem maior se considerados outros formatos de negócios, como os focados em anúncios publicitários.

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VELOZES E CURIOSOS
Heitor Chaves, 26 anos (de azul) e Guilherme Wroclawski, 27, demoraram tanto a lançar
um produto que a concorrência passou na frente.
Enxergaram novas oportunidades e correram atrás do prejuízo.
Hoje, o site Save Me faz parte do Buscapé

 No ano passado, a internet brasileira renasceu em um processo similar ao que aconteceu no final dos anos 1990, com a diferença de que não se vê bolha no horizonte. Nesta segunda leva, rapazes com menos de 30 anos criam diariamente projetos inspirados em modelos bem-sucedidos fora. É o caso do site de leilões Olho no Click, de Guilherme Pizzini, 27 anos, e mais três sócios (o mais novo tem 22 anos). “Para falar a verdade, eu nem pensava em nada ligado à internet”, diz. “A ideia surgiu numa mesa de bar, por sugestão de um amigo, hoje sócio, que tinha visto o modelo na Alemanha.” Lançado no final de 2008, o site levou um ano até se pagar. Hoje, conta com 600 mil usuários, leiloou cinco mil itens – até um apartamento – e fechou 2010 com um faturamento de R$ 5 milhões.

O custo inicial baixo e a velocidade com a qual as coisas acontecem são atrativos para esses jovens. Os amigos publicitários Guilherme Wroclawski, 27 anos, e Heitor Chaves, 26, começaram literalmente no quarto da casa de um deles e com um investimento de R$ 5 mil. A ideia era genial e promissora. Há um ano, eles imaginaram montar um site de compras coletivas. Lapidaram tanto o projeto que, quando lançaram, já existiam quase cem empresas similares, impulsionadas pelo sucesso do pioneiro Peixe Urbano (hoje são duas mil). Em meio à decepção, eles tiveram uma sacada: fazer um portal que agrupasse diversos sites de compras coletivas, facilitando a vida do usuário. Nasceu o Save Me. Três meses depois, venderam 75% da empresa para o Buscapé e contam com um orçamento de R$ 5 milhões só de plano de mídia. Números que mostram como o modismo está longe de ser uma brincadeira de garotos.

A agilidade, a flexibilidade e a ousadia exigida pelos usuários da internet se harmonizam com essa geração que cultiva o desejo de empreender. Segundo um estudo do Sebrae, 49% dos novos empresários brasileiros têm entre 25 e 39 anos. E na última década subiu de 4% para 14% o número de empreendedores com menos de 24. “Nos anos 1980, ou você era funcionário público ou trabalhava em uma grande empresa. Hoje, empreender é opção”, destaca Gil Giardelli, professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), de São Paulo. “E finalmente as universidades estão preparando os jovens para isso.” A Faculdade Getulio Vargas de São Paulo (FGV-SP) – celeiro de empresários brasileiros – foi pioneira. Criou um curso sobre empreendedorismo em 1989. Em 2004, foi criado um centro focado nessa área, um verdadeiro laboratório de como se fazer negócios. A faculdade trouxe Mark Zuckerberg, criador do Facebook e ícone da geração “.com”, para uma palestra há dois anos.

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NOVOS MODELOS
Marcus Andrade, 28 anos, sentia falta de um guia de lazer onde todos
pudessem fazer suas resenhas críticas e montou o Guidu,
um roteiro colaborativo de bares, baladas e cinemas que começou em
São Paulo e agora começa a chegar em mais 20 praças

Os bons exemplos prosperam e inspiram. “Apesar de as novelas ainda retratarem o empresário como o vilão ladrão que tem duas amantes, esta opção está cada vez mais no plano dos jovens”, acredita Marcus Andrade, um paulista de 28 anos, ex-aluno da FGV. Ele fala a partir da experiência de quem passou cinco anos na Endeavor, ONG americana que funciona como incubadora de empresas. De tanto ajudar a dar à luz negócios de todos os ramos, decidiu que estava na hora de ele ter uma firma para chamar de sua. Da paixão por bares, restaurantes e cinemas nasceu o Guidu, um guia de lazer totalmente pautado pelos usuários, outra tendência que ganha força no Brasil, os sites colaborativos. Paulo Veras, 38 anos, sócio do guia, é da primeira geração de empreendedores da internet. Começou em 1995, quando poucos brasileiros tinham acesso à rede. Hoje, celebra a nova safra de lançamentos. “Ficamos dez anos sem nada de interessante, tudo o que surgia vinha de fora”, diz.

Os especialistas não veem risco de uma nova quebradeira, pois o cenário econômico é promissor e a internet está acessível para as classes baixas. O que já está acontecendo é uma seleção natural dos negócios. “De um ano para cá, dobraram os pedidos”, conta Walter Leandro Marques, diretor da Tray, empresa criadora de plataformas de sites – são oito novos por dia. “Mas subiu de 25% para 40% o número das que não duram nem seis meses.” Muitos novatos, diz ele, não se planejam direito, colocam o site no ar e simplesmente rezam para os deuses da rede.

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VAQUINHA ONLINE
O cineasta Micael Langer, 36 anos, lançou o Incentivador.com ao perceber que podia captar recursos
com o sistema de “crowdfunding”, no qual muitos colaboram com pouco em prol de um projeto

Ainda assim, as oportunidades são infinitas. Tão atraentes que começam a chamar gente de outras áreas. Micael Langer, um cineasta carioca de 36 anos, acaba de lançar o Incentivador.com, site que permite a pessoas comuns contribuir financeiramente para a realização de um projeto cultural, num modelo conhecido como “crowdfunding”. Micael teve a ideia a partir da própria dificuldade de conseguir captar recursos para o seu documentário “Simonal”, lançado em 2009. O bichinho do “.com”, no entanto, já picou o artista. “A internet permite ganhar dinheiro de formas não óbvias”, resume, já pensando em lançar os outros dois projetos online que tem em mente.

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