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Ainda há tempo para resolver?

Governo promete obras e cria um ministério para arrumar os aeroportos até a Copa do Mundo. Especialistas acham que agora é tarde

Ainda há tempo para resolver?

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ENGARRAFAMENTO
O número de pessoas que viajam de avião superou o
de passageiros de ônibus e aumentou o caos nos aeroportos

A distância entre o que se vê nos aeroportos brasileiros e o que se promete para eles está cada vez maior. Primeiro o que se vê: hoje o número de pessoas que viajam de avião supera o de passageiros de ônibus. O aumento de renda das famílias que permitiu essa situação inédita na aviação comercial é uma boa notícia, mas apertou ainda mais o gargalo nos já entupidos aeroportos do País. Os terminais nas grandes cidades estão com capacidade praticamente esgotada. E, não bastassem as deficiências atuais, o Brasil está a três anos de sediar a Copa do Mundo, o que representará uma elevação notável no fluxo de passageiros. Agora o que se promete: com uma ampla reformulação no setor, já iniciada pelo governo, os aeroportos brasileiros estarão no estado da arte antes mesmo da Copa de 2014.

O que explica tamanho otimismo? O governo Dilma Rousseff reconhece que o problema dos aeroportos exige urgência e começou mudando cabeças. Na quinta-feira 24, Gustavo do Vale, ex-executivo do Banco Central, assumiu a presidência da Infraero. Dias antes foi criada a Secretaria de Aviação Civil, que terá status de ministério, com a tarefa de formular estratégia para o setor. A Infraero dispõe de R$ 5,23 bilhões para investir na modernização dos aeroportos das 12 cidades-sedes da Copa, que concentram 87% do tráfego aéreo nacional. E jura que o plano de investimentos é suficiente e está dentro do cronograma, sem atrasos. Se tudo for feito como o governo prevê, o Brasil assistirá a um incrível festival de inaugurações. De junho a novembro de 2013, será entregue um aeroporto reformulado a cada mês (Galeão, no Rio, em junho; Cuiabá, em julho; Salvador e Fortaleza, em agosto; Belo Horizonte, em outubro; e Guarulhos, em São Paulo, em novembro).

Mas a festa mesmo está marcada para acontecer em dezembro de 2013. Nada menos do que seis novos terminais têm inauguração prometida: Curitiba, Manaus, Campinas, Recife, Brasília e Porto Alegre. Pelo projeto, já em 2012, seis aeroportos teriam suas pistas e pátios ampliados, entre eles os de Curitiba, Confins e Guarulhos. A lista de benfeitorias da Infraero inclui também a ampliação do sistema de pistas do Aeroporto de Guarulhos, as reformas nos Terminais 1 e 2 do Aeroporto do Galeão e a instalação de um saguão móvel no Aeroporto de Viracopos, em Campinas. Muitas dessas obras, porém, ainda não saíram do papel e pelo menos nove delas só terão início em 2012.

Com todas as dúvidas que sobrevoam os céus, a presidente Dilma Rousseff decidiu tomar para si as rédeas da infraestrutura aeroportuária e avisou que o governo fará uma intervenção nos aeroportos, o que vai incluir concessões ao setor privado e atração de no­vos investimentos. “Não temos preconceito contra nenhuma forma de expansão do investimento nessa área”, garante Dilma. Ao assumir a presidência da Infraero, Gustavo do Vale disse que vai trabalhar pela abertura do capital da empresa, tornando-a mais competitiva. Ele só não assume compromisso com a privatização. “Isso é uma decisão de governo.”

Os especialistas, porém, seguem apreensivos. Para o ex-superintendente do Aeroporto do Galeão e consultor em infraestrutura aeroportuária José Wilson Massa, o governo perdeu o timing dos investimentos. As obras, segundo ele, só vão atender à demanda atual, e não ao futuro vo­lume de passageiros. Um estudo da Coppe/UFRJ, que acaba de sair do forno, vai na mesma linha. Responsável pelo trabalho, o professor do Programa de Engenharia de Produção Elton Fernandes diz que, com exceção do Galeão (RJ), Brasília, Fortaleza e Manaus, os outros aeroportos da Copa estão operando no limite e as obras não devem mudar esse quadro. A demanda do Aeroporto de Guarulhos em 2014 será de 37,1 milhões de passageiros, e não de 35 milhões, como prevê o governo, conforme o estudo. Hoje, Guarulhos tem capacidade para atender 20 milhões de pessoas, mas recebe 26 milhões.

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