Cultura

“Não fotografei nenhuma gota de sangue”

Após registrar o lado humano do Afeganistão, o brasileiro Mauricio Lima é eleito o melhor fotógrafo de agência internacional pela revista americana "Time"

“Não fotografei nenhuma gota de sangue”

chamada.jpg
INTIMISMO
Garotos em projeto americano

img.jpg
Soldado afegão: obra de Lima é
comparada à do lendário Cartier-Bresson
 

Diante de um campo de papoulas, o soldado afegão encosta o lançador de granada num canto de parede e entrega-se à oração. O instante de recolhimento ao pôr do sol poderia passar despercebido para muitos fotógrafos. Afinal, bem ao lado, militares americanos interrogavam um fazendeiro sobre a presença na região de integrantes do Talibã, o movimento fundamentalista islâmico do Afeganistão. “Eu poderia ter registrado o interrogatório, mas era uma cena comum”, diz o fotógrafo paulistano Mauricio Lima. “Os americanos sempre batiam nas portas, pediam aos caras para saírem e começavam a perguntar sobre talibãs, armas e explosivos.” Por seu olhar diferenciado durante a temporada de trabalho no país assolado pela guerra, Lima foi eleito o melhor fotógrafo de agência internacional pela revista americana “Time”. Além do título, a prestigiosa publicação comparou a obra do brasileiro à do lendário fotógrafo francês Henri Cartier-Bresson (1908-2004). “As imagens íntimas e poéticas que Lima faz parecem vir de outra época. Sua abordagem e composição remetem ao ‘momento decisivo’ de Cartier-Bresson”, escreveu a “Time”, referindo-se ao instante em que, segundo o francês, a cabeça, o olho e o coração estão alinhados.

img4.jpg
PLASTICIDADE
Fuzileiro americano
faz pose em frente a bunker 

Aos 35 anos, Lima está habituado a percorrer regiões devastadas por conflitos armados. Fotógrafo há 12 anos, ele contabiliza seis viagens de trabalho ao Iraque, uma à Faixa de Gaza, na ­Palestina, e outra a Jerusalém, em Israel. Sediado no escritório paulistano da Agência France-Presse, em 2010 o fotógrafo passou 65 dias no Afeganistão. País da Ásia Central estremecido por conflitos bélicos há mais de três décadas, o Afeganistão encontra-se desde 2001 ocupado por forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte ­lideradas pelos Estados Unidos. Foi com os americanos que Lima passou os primeiros 31 dias, engajado ao 3o Batalhão da 6a Divisão dos Marines, o Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA.

img3.jpg
Fazendeiro afegão com os filhos,
em Marjah, no sul do país

Na base militar de Marjah, no sul do Afeganistão, ele dividiu uma barraca com oito militares e encarou a mesma rotina dos marines, que incluía patrulhas diárias a pé, com duração média de seis horas. “A diferença é que os militares carregavam armas e eu, o meu equipamento fotográfico.” Embora a figura do repórter ou fotógrafo engajado às tropas tenha sido criada pelo governo americano para evitar que cenas desfavoráveis a sua ação corram o mundo, Lima não sentiu nenhuma restrição ao próprio trabalho. Da mesma forma que se mostraram abertos para exibir suas tatuagens para a câmera, os marines não se opuseram à proposta do brasileiro de fotografar trabalho infantil num projeto coordenado por um de seus colegas de barraca. No entorno da base militar, crianças de 3 a 12 anos trabalhavam de quatro a oito horas semanais, recebendo US$ 5, cavando buracos para neles queimar lixo recolhido de um bazar. 

img1.jpg
Após registrar o lado humano do Afeganistão,
o brasileiro Mauricio Lima é eleito o melhor
fotógrafo de agência internacional pela revista americana “Time”

Durante as patrulhas em Marjah, os principais temores de Lima eram as bombas e os tiroteios. “Nessas horas, o que resta é se proteger. E ao mesmo tempo fotografar”, resume. Até nos momentos tranquilos ele percebia resistência à presença americana na região. “Os marines falavam ‘salamaleicon’ (saudação a Alá) e recebiam de volta olhares de reprovação”, conta Lima. Depois da estadia na base militar, ele passou outros 34 dias na capital, Cabul, acompanhado apenas pelo ­motorista afegão que trabalha para a agência francesa. Por causa dos rígidos costumes locais, não conseguiu ­retratar mulheres, mas ­esse e outros trabalhos continuam nos planos. Lima, que na juventude se dividiu entre a culinária e a fotografia, planeja voltar em breve para a região.

img2.jpg
MEMÓRIA
Homenagem de militar dos EUA a amigos
mortos no Iraque