Editorial

O VÍRUS QUE SALVA

O VÍRUS QUE SALVA

 A liberdade é o vírus do momento. Um ser invisível, que contagia de forma rápida e ultrapassa fronteiras numa saudável pandemia. Na costa árabe do Mediterrâneo, parece incontrolável. Quando ele ataca, provoca febres de esperança, ânsias de democracia, histeria coletiva por direitos. Países inteiros tremem, regimes se debilitam e, em casos extremos, morrem. Que assim seja. Pois o passo seguinte do óbito das ditaduras é o renascimento das nações. Se bem cuidadas e fortalecidas em sua nova gestação, podem crescer alimentando-se do respeito aos desígnios de seus cidadãos e da alternância no poder. Abandonadas e maltratadas, ficam à mercê de parasitas oportunistas, forças opressoras que assumem o comando em nome de um único grupo ou de uma doutrina fundamentalista.

A liberdade é um vírus do bem, de poder transformador. Mas esse vírus, ao mesmo tempo, é frágil, efêmero, vulnerável a antídotos que a humanidade aperfeiçoou ao longo dos séculos. Repressão, violência, censura, combinadas com doses de cinismo e interesses econômicos e políticos, podem inibir seus efeitos por longos períodos. Não o matam, mas o isolam, enclausuram-no até que o sistema imunológico das ditaduras abra uma brecha e permita uma nova epidemia. É o que acontece no mundo árabe. Dominado à força por déspotas do calibre de Muamar Kadafi , da Líbia, ou dinastias sem vocação democrática, como as dos reis da Arábia Saudita e do Bahrein, o vírus da liberdade viveu incubado em silêncio por décadas. Ninguém fez questão de despertá-lo, nem mesmo aqueles que se proclamam líderes do mundo livre. Kadafi , ex-inimigo do Ocidente, por conta de seu  petróleo foi abençoado peloslíderes europeus, de quem compra armas em larga escala. No pobre Iêmen, estrategicamente posicionado na ponta da Península Arábica, é melhor não mexer com o ditador amigo. Por eles, a liberdade podia esperar.

Não pode mais, assim como o mundo não deve mais tolerar a presença de tiranos no poder. A nova epidemia da liberdade é prova de que, tanto quanto comer e trabalhar, ser ouvido é uma necessidade básica do ser humano nessa era da comunicação. Derrubadas as barreiras do conhecimento e da informação, surge a consciência do que é possível alcançar com democracia e desenvolvimento e de que esses valores não são incompatíveis com nenhum credo. Que o contágio continue e chegue a outras áreas do globo em que o vírus ainda está latente.