Cultura

Ataque sonoro

Principal atração do Tim Festival, a banda nova-iorquina The Strokes fala da alegria de tocar no Brasil e do terceiro e aguardado álbum

As obrigações de um rock star nem sempre são agradáveis. Pegue-se o exemplo dos rapazes da banda The Strokes, principal atração do Tim Festival, ao lado de Elvis Costello, Kings of Convenience, Kings of Leon e Arcade Fire. O quinteto tinha demonstrado apetite para uma feijoada no restaurante paulistano Figueira Rubayat, recomendado por um brazuca conhecedor da gastronomia de São Paulo. Ocorre que o bufê com o prato nacional só é servido naquele endereço dos Jardins aos sábados. E, durante a temporada da banda nova-iorquina pelo País, para concertos entre os dias 21 e 25, no Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, o sábado 22 está comprometido com o espaço carioca Armazém 5, no Cais do Porto. Foi uma adesão de última hora, para acomodar o apetite dos fãs. Restará a Julian Casablancas – o vocalista e compositor do quinteto, e fã da fejuca – procurar um comedouro carioca, o que, convenha-se, não falta. Ou, talvez, a hospitalidade dos familiares do baterista brasileiro Fabrizio Moretti (esclarecimentos: sim, ele fala português. Sim, ele continua com a atriz Drew Barrymore), atraia a trupe para um rebu caseiro. “Tem gente que eu não vejo desde 1983. Dezessete parentes já me ligaram. E acabam sempre pedindo ingressos.” É compreensível este assédio: as entradas para o show principal dos Strokes, no Museu de Arte Moderna carioca, estão esgotadas. E não é para menos, já que é no País que será dado o pontapé inicial na turnê mundial que apresenta o esperado terceiro e mais recente álbum, First impressions of Earth (Sony BMG), do conjunto que é elevado a comparações com os Beatles, Nirvana, Velvet Undergroud, e mais uma variedade de ícones do panteão da fama do rock’n’roll.

Na quarta-feira chuvosa – em que se estabeleceu o recorde de pluviometria para o dia 12 de outubro em Nova York –, os cinco Strokes conversaram com exclusividade com ISTOÉ. Um papo que foi além da culinária brasileira, centrado especialmente na receita musical do grupo em sua carreira e neste novo disco. “A maior diferença neste álbum é a participação de David Kahne como produtor. É perceptível a mudança de rumos. Acho que First impressions of Earth é muito diferente dos dois álbuns anteriores”, diz Casablancas. “Foi tudo muito trabalhado. Demorou um ano, desde o momento em que entramos no estúdio até o final das gravações”, diz o baixista Nikolai Fraiture. Os críticos vinham acusando a banda de ter repetido a fórmula em seu segundo álbum, Room on fire (2003), que acharam muito parecido com o genial Is this it (álbum de estréia, de 2001). Os fãs, por outro lado, reclamaram o contrário: o segundo trabalho não seguia os caminhos do primeiro. “Não dá para contentar a todos”, diz Casablancas. “Acho que tanto neste álbum de agora quanto no segundo, nós apenas evoluímos. Não repetimos nada, mas é de se esperar que tenhamos nossas características próprias”, diz. O DNA dos Strokes também é detectável neste First impressions, mas o pé da turma está muito mais na garagem – vertente do rock que todos eles assumem como herança – do que na biblioteca, onde residem os outros gens – mais harmoniosos, experimentais e intelectuais, que fazem parte do biotipo dos rapazes.

Este mapa genético-musical explica a história do grupo. Não é à toa que os nova-iorquinos Strokes estouraram primeiro na Grã-Bretanha. “Eles estavam esperando mais uma banda americana do tipo Backstreet Boys e levaram um susto com a gente”, diz Fabrizio. Eis a racionalidade deste sucesso: os britânicos são mais abertos a experimentalismos. Não têm o apego exagerado às raízes fortes do rock – como o gospel, o blues, a country music e o jazz, como ocorre com as bandas americanas. Além disso, há uma tendência grande a dar muita importância às harmonias – uma das tradições musicais européias. Ao quebrar o molde restritivo dos grupos americanos e mergulhar nas experiências melódicas britânicas, os Strokes acabaram criando caminho próprio e agradando ouvidos nos dois lados do Atlântico. Esta, pelo menos, é a explicação com que Fabrizio, Casablancas, Nikolai, Albert Hammond Jr. (guitarra) e Nick Valensi (guitarra) concordam.

Influências – Esta explicação – muito intelectualizada, convenha-se, como só haveria de ser para um grupo de cidadãos do mundo, mas eminentemente nova-iorquino – parece bem melhor do que aquela dada pelos críticos musicais que vêem a banda apenas como uma cópia do antigo grupo Velvet Underground. “Eu jamais disse isso, mas se tiver de apontar influências mais marcantes em nossa formação, apontaria para o Nirvana e o Velvet Underground”, diz Casablancas. Apressa-se também em lembrar que isso não significa tendências copistas. First impressions of Earth, de agora, deverá reforçar estes estereótipos – ou, pelo menos, revelar mais distintamente as fontes da banda. Trata-se de trabalho mais centrado no rock garagem do Nirvana, especialmente nas faixas The ize of the world e Vision of division. Mesmo a já lançada – único aperitivo oficial dado pela gravadora via internet – Juicebox segue, de certo modo, a mesma linha. Mas há novidades harmoniosas como I’ll try anything once, Ask me anything – ambas com vertentes no gênero soul – e Heart in a cage, que tem originalidade com o selo de garantia dos Strokes.

Os brasileiros terão oportunidades de sobra para experimentar em primeira mão algumas destas composições. “Eu morria de vontade de tocar no Brasil, minha terra. Mas nunca tivemos esta oportunidade. Estamos todos superentusiasmados”, diz o carioca Fabrizio, que saiu da terrinha aos três anos de idade, seguindo seu pai italiano e sua mãe brasileira. “Acho que há uma gentileza muito característica dos brasileiros, além, é claro, da energia e da genialidade”, diz Casablancas – cujo pai, John Casablancas, fundador da agência de modelos Elite, morou no Brasil e é casado com uma brasileira. “Julian e eu temos ligações fortes com o País. Acho que vamos ter dias fantásticos por lá”, diz Fabrizio. “Nós gostamos muito do grupo Los Hermanos. Agora me diga: por que eles se chamam Los Hermanos? Por que escolheram um nome em espanhol?”