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Calamidade

Na pior seca das últimas décadas, rios e igarapés da Amazônia secaram, deixando a população isolada e sem água potável

Nos últimos anos, virou hábito atribuir ao El Niño a culpa por qualquer anomalia climática ao sul do Equador. Resultado do aquecimento nas águas do Oceano Pacífico, esse fenômeno se tornou peixe pequeno diante da coleção de tragédias ambientais recentes. Desta vez, a vítima foi a Amazônia central, que sofre os efeitos da pior estiagem das últimas décadas. Com a ausência de chuvas, os rios e igarapés secaram. Só no Amazonas, quase mil comunidades ficaram isoladas, sem acesso a comunicação nem a água potável, o que não deixa de ser irônico, já que a região abriga a maior bacia hídrica do mundo.

O rescaldo da seca ainda deve demorar a ser contabilizado. Para os cientistas, a estiagem que produziu um cenário nordestino em plena floresta é indício da mudança climática. Para boa parte dos 20 milhões de brasileiros que vivem na região, nada mais distante do que falar em aquecimento global ou efeito estufa. O que fica é a sensação de que algo mudou. Os barcos passaram a encalhar onde antes navegavam tranqüilos, e o leito dos rios não é mais o mesmo. Em suas pesquisas de campo, o biólogo mineiro Enrico Bernard ouviu relatos impressionantes. “As pessoas mais velhas dizem que o verão está mais forte e as chuvas que chegavam no início de dezembro agora só vêm em janeiro”, diz o cientista da ONG Conservação Internacional.

A conseqüência a longo prazo ninguém sabe. Já os efeitos imediatos da seca são óbvios, segundo o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam): rios baixos, mortandade de peixes, problemas na produção agrícola. Essa combinação produz um quadro de desgraça. “Com a morte de grandes cardumes de peixes, de peixes-boi e botos, aumenta o risco de contaminação da água dos rios, o que compromete o abastecimento de ribeirinhos e pequenos produtores”, resume o Ipam.

Como qualquer organismo vivo, a floresta tem seus meios naturais de defesa. Quando está intacta, em geral ela é imune ao fogo e a copa das árvores mantém úmido o interior da mata. Ao se romper esse ciclo, começa uma matemática cruel e viciosa: a seca favorece o surgimento de queimadas, que produzem fumaça e atrapalham a formação das nuvens de chuva, o que prolonga ainda mais a seca. “Esse tipo de estiagem é cíclico na Amazônia. Nos últimos 113 anos houve seis secas graves”, pondera o governador Eduardo Braga (PPS-AM), que declarou estado de calamidade pública no Amazonas.

Os estudos recentes não trazem refresco. Segundo a Universidade da Organização das Nações Unidas (ONU), a desertificação, a elevação do nível do mar, as inundações e tempestades podem levar cerca de 50 milhões de pessoas no mundo a abandonar suas casas até 2010, criando a categoria dos refugiados ambientais.

Ao que tudo indica, 2005 deve entrar para a história como o ano mais quente desde que começaram as medições de temperatura. Especialistas da agência espacial americana Nasa analisaram dados de sete mil estações meteorológicas no mundo e apontam sinais dramáticos do efeito estufa. A redução da camada de gelo no Ártico e o aumento na temperatura do oceano no Golfo do México, devastado por dois furacões, são indícios de que algo vai mal no clima do planeta.