Comportamento

Capitalismo selvagem

Cada vez mais corredores de aventura ajudam grandes empresas com suas experiências radicais

Durante a corrida de aventura Subaru Primal Quest de 2002, nas montanhas do Estado americano do Colorado, o atleta e engenheiro-médico Ries Robinson deparou-se com uma situação de alerta. Pedras começaram a despencar próximo à área em que estava com a sua equipe, acompanhados de um repórter. Ao constatar o perigo, Robinson agarrou o jornalista, já atônito, pelo braço e, com firmeza, o obrigou a sair do lugar rapidamente. Ninguém ficou ferido graças à eloqüência de Robinson. Em suas palestras sobre liderança ministradas para seus patrocinadores, o corredor conta a história como exemplo de situações em que as decisões devem ser rápidas e enérgicas.

Robinson é apenas um dos competidores que levam as lições da selva e da montanha – palcos das corridas de aventura – para enriquecer a vida empresarial. Para quem não sabe, corrida de aventura é um esporte criado nos anos 1980 pelo francês Gérard Fusil que reúne várias modalidades como trekking, mountain bike e técnicas verticais, além de sofisticadas técnicas de navegação, num percurso de até 500 quilômetros que pode durar dez dias. Não por acaso, seus competidores são requisitados cada vez mais para ministrar cursos de liderança, motivação e trabalho em equipe. O apuro vivido por Robinson, hoje na equipe GoLite Timberland, virou modelo para exemplificar um dos três tipos de liderança aplicáveis, segundo ele, tanto nas corridas como no mundo empresarial. O caso relatado acima é o momento de crise em que o líder precisa tomar uma decisão rápida e firme. Cabe aos outros obedecê-la. O segundo tipo é chamado de consensual. Quando o caminho a ser seguido é incerto e não existem riscos iminentes. O líder pode parar e discutir com os colegas o que deve ser feito. Por fim está o que Robinson chama de liderança visionária. Ninguém sabe o trajeto, mas o líder intui um e o grupo se deixa guiar.

Equipes brasileiras de ponta também são convocadas por grandes empresas para o treinamento corporativo. Mais bem colocada do País na Ecomotion/Pro 2005, realizada entre os dias 2 e 8 deste mês, na Serra Gaúcha, a Oskalunga Brasil Telecom começou a fazer palestras e eventos recreativos em 2003. Usa vídeos como o que mostra um atleta empurrando o outro ladeira acima durante um trecho de bicicleta. “É impossível que todos os integrantes de um grupo estejam bem o tempo inteiro. É preciso se ajudar. E assumir a responsabilidade quando você estiver melhor”, explica Frederico Gall, 32 anos, capitão da equipe no Ecomotion/Pro. Neste ano, o time já desenvolveu palestras em Rondônia, Goiás e na cidade natal, Brasília, ao custo médio de R$ 4 mil por empresa. Outro integrante, Monclair Cammarota, 27 anos, resume o espírito dos seminários: “Assim como na corrida, uma empresa tem uma meta, mas precisa descobrir o caminho para alcançá-la.” Profissionais da corrida de aventura, os atletas ainda têm como principais fontes de renda os patrocínios e os prêmios. No Ecomotion/Pro, a equipe levou US$ 5 mil.

Vitor Negrete, da Try On Landscape, e Rodrigo Raineri, que escalaram juntos o Monte Everest e o Aconcágua, abordam em concorridas palestras os grandes desafios enfrentados nessas aventuras. Eles mostram a importância de superar conflitos individuais para que o trabalho de equipe prevaleça. As lições de planejamento, comprometimento, auto-estima, perseverança e logística já ajudaram gigantes como Petrobras, White Martins e Unilever.

A Mitsubishi Salomon Quasar Lontra, de São Paulo, vencedora do Ecomotion/Pro do ano passado, já atendeu a empresas como Rolls-Royce, Natura e Microsoft. Depois do sucesso de uma palestra gratuita em 2002, a equipe elaborou seminários. Um dos pioneiros em corridas de aventura, Sérgio de Sá, o Zolino, 37 anos, criou a Adventure Camp, empresa que organiza corridas de aventura para iniciantes e atividades para empresas. Em parceria com a esposa, a psicóloga Cláudia Vidigal, Zolino elabora um programa de atividades de acordo com os objetivos dos clientes. O primeiro deles foi na Intel, há quatro anos. Hoje são cerca de três por mês, ao custo médio de R$ 400 por pessoa. Uma das principais lições é mostrar que liderança não é igual a poder. “Às vezes, um estagiário e o diretor da empresa estão lado a lado e o primeiro tem uma solução melhor para o problema proposto. Naturalmente ele virou uma liderança.”