Brasil

Matar ou morrer

No referendo das armas e munições, o NÃO à proibição avança e torna a disputa apertada. Indefinições à parte, respondemos as últimasdúvidas sobre seu voto

Sustentada por uma mensagem de apelo irresistível – a esperança de que o fim do comércio de armas e munições instaure um pouco mais de paz no País –, a Frente Parlamentar Brasil sem Armas começou a disputa para o referendo do dia 23 certa de uma vitória do SIM sem atropelos. Mas, perto do fim da disputa – a propaganda de tevê e rádio se encerra na quinta-feira 20 –, o SIM é ameaçado por uma reviravolta do NÃO e o referendo, que mobilizará 120 milhões de eleitores, está indefinido.

Os efeitos do crescimento do NÃO preocupam os representantes do SIM, que substituíram o publicitário Paulo Alves por Luiz Gonzales, responsável pela campanha do prefeito José Serra em São Paulo. Pesquisas de opinião reservadas, feitas tanto pela Frente Parlamentar Brasil sem Armas, que defende o voto sim, ou seja a proibição, quanto pela Frente Parlamentar pelo Direito da Legítima Defesa, que defende o voto não, apontam para um confronto acirrado. E o que essas sondagens quase diárias mostram é que a disputa está empatada, com a decisão cabendo a cerca de 10% de indecisos, que só vão definir seu voto praticamente na hora de apertar os botões da urna eletrônica. Segundo o staff da frente pelo Sim, essa situação já era até esperada. A explicação é que o cenário anterior à campanha pela tevê, onde o Sim chegava a ter 80% das intenções de voto, enquanto o Não patinava em 20%, era resultado de “uma quase unanimidade na mídia a favor da proibição de armas”, diz um dos coordenadores da campanha. A turma do Sim, que é liderada pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), garante que sempre trabalhou com a hipótese de vitória por uma margem de 10%, no máximo. Mas o desempenho da turma do Não acabou surpreendendo seus adversários.

Um dos aspectos que marcaram mais na população – e isso se reflete nas conversas nos locais de trabalho e nos bares – foi a opção do NÃO tratar a questão não apenas como uma simples proibição da venda de armas, mas sim como a anulação de um direito do cidadão de se defender. “Sempre disse que nossa campanha não tinha estrelas. Que o astro era o povo”, afirma o líder do Não, deputado federal Alberto Fraga (PFL-DF). Ex-coronel da Polícia Militar do Distrito Federal, Fraga, que foi muito ativo antes de a campanha começar, participando, com seu estilo voluntarioso, de debates em qualquer lugar onde fosse convidado, foi afastado das telas quando o programa de tevê começou, substituído por uma jornalista de fala mansa. Ele não tem dúvidas que a campanha do NÃO está dando certo. “Saímos de uma posição minoritária, lá embaixo. E agora é a própria frente do SIM que já admite um empate técnico”, não escondendo a satisfação com dados internos que mostram o NÃO na frente. Mentor intelectual da campanha do NÃO, o publicitário Chico Santa Rita reafirma que pesquisas mostram uma mudança na posição do eleitorado. “Percebemos que os argumentos em defesa dos direitos e da liberdade do cidadão foram muito bem recebidos”, garante.No lado do SIM, a expectativa é pelo desempenho nos últimos dias de campanha gratuita. O dado mais importante é que pesquisas qualitativas mostram que
começa a haver uma cristalização das intenções de voto. Cerca de 80% já teriam decidido pelo SIM ou NÃO e não mudariam mais. Sobrariam pelo menos 10%
de indecisos, que serão o alvo dos programas finais. Na sexta-feira 14, o Ibope divulgou o resultado de sua pesquisa. Deu NÃO por uma diferença pequena. Para Carlos Augusto Montenegro, presidente do Ibope, “isso se deve à campanha da tevê”. Ele acredita também que pode ter havido algum ingrediente de protesto. “O governo está em crise e a população tende a protestar. O NÃO é uma alternativa que representa a insatisfação.”