Edição nº2488 18.08 Ver edições anteriores

Obama e Dilma

Na relação com os EUA, há uma chance de ouro de diferenciação em relação a Lula

De todas as declarações de Lula em oito anos de governo, uma das mais despropositadas foi a confissão feita nos últimos dias de seu reinado. Segundo o ex-presidente, dava “um gostinho especial” concluir um mandato vendo os Estados Unidos mergulhados em crise. Frase típica de quem não se libertou completamente do complexo de vira-lata e ainda busca construir a própria identidade projetando-se na imagem do irmão mais rico, como no clássico “O Espelho de Próspero”, do historiador Richard Morse, que tratava justamente dos traumas da América ibérica em relação à anglo-saxônica.

Na era Lula, o antiamericanismo foi uma das características mais explícitas. Para conhecer a linha do Itamaraty em determinado assunto, bastava descobrir a posição do Departamento de Estado norte-americano e apostar na direção oposta. Uma política ingênua e ineficaz, evidenciada em episódios como os de Honduras e do Irã, que impediu uma aproximação maior entre dois líderes – Lula e Barack Obama – que poderiam ter muito em comum, uma vez que ambos representam, simbolicamente, o dinamismo e a mobilidade de suas sociedades.
Mais pragmática e menos ideológica do que Lula, a presidente Dilma tem agora uma oportunidade de ouro de reparar esse erro. Aliás, o primeiro grande acerto da presidente eleita foi deixar de fora de sua equipe o ex-chanceler Celso Amorim e indicar como sucessor o embaixador Antonio Patriota, que fez sua estreia no Fórum Econômico Mundial de Davos, revelando um estilo bem mais discreto e equilibrado.

Barack Obama virá ao País em março disposto a reconstruir pontes entre Brasil e Estados Unidos. Em seu discurso ao Congresso, na semana passada, ele revelou uma nação que não se enxerga mais como império, capaz de impor e de fazer valer sua posição de forma unilateral, como na era Bush. Obama é a imagem de mundo pós-americano, onde os Estados Unidos terão de negociar cada vez mais com novos atores, como Brasil, Rússia, Índia e China. E Dilma pode se beneficiar muito dessa nova realidade.
Do ponto de vista econômico, há mais convergência do que divergências entre Brasil e EUA. Os dois países são grandes exportadores de alimentos e, com o etanol de cana ou de milho, também representam a fronteira da agroenergia no mundo. Afora isso, uma aproximação maior com Obama também trará benefícios internos para Dilma. Passará a imagem de que ela representa uma continuidade em relação a Lula, mas apenas nos acertos. Não nos erros juvenis.


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