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Medo de novo em Chernobyl

Radiação volta a vazar e ameaça a usina, 25 anos após o maior acidente nuclear da história. Enquanto isso, países discutem quem pagará a conta para mantê-la segura

Medo de novo em Chernobyl

Assista a vídeo que conta a história do acidente na usina nuclear de Chernobyl :

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ENSAIO
Treinamento de segurança na usina cuja
explosão transformou Pripyat (abaixo) numa cidade deserta

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Há poucos meses de o maior acidente nuclear da história completar 25 anos, Chernobyl, na atual Ucrânia, ainda não se livrou de seu fantasma mais assustador. Quando o reator da usina nuclear explodiu, em 1986, uma estrutura foi construída às pressas para isolar o material radioativo. Com o tempo, esse “tampão” passou a apresentar rachaduras e falhas estruturais. Assim, a mesma radiação que se espalhou pela Europa e Ásia pode escapar. Apesar da magnitude do problema, a solução é simples: construir uma nova e mais moderna redoma em torno da usina. Até um orçamento chegou a ser feito. A questão é que não há quem assine o cheque mais polpudo.

O projeto tem custo estimado em 2 bilhões de euros (cerca de R$ 4,6 bilhões). Parte já foi levantada, mas ainda faltam 740 milhões de euros. A Rússia, apesar de posar como sucessora da extinta União Soviética, pouco ajudou seu antigo domínio – a Ucrânia se tornou independente com o fim do bloco socialista, em 1991. O novo sarcófago deve ter a forma de um hangar de avião, com 150 metros de altura. Ele seria erguido perto do antigo reator e movido até o destino final por meio de trilhos. Conteria a radiação por um século, tempo suficiente para que as ruínas não sejam mais uma ameaça e tudo possa ser desmontado com segurança.

Seria o final relativamente feliz de uma história que começou no dia 26 de abril de 1986. Trabalhadores da usina, cansados de um dia inteiro de trabalho ou testando um procedimento – ainda não se sabe – desligaram o reator rápido demais. Essa fase, quando há o resfriamento do núcleo, exige extrema cautela. À 1h23, esse núcleo explodiu e rompeu a tampa do reator. A fumaça estava carregada de materiais radioativos como iodo, césio e estrôncio – o que traria consequências drásticas naquele momento e nos anos seguintes. Só a hora exata do estouro liberou mais radiação do que a bomba de Hiroshima.  

A poeira radioativa se alastrou por grande parte da Europa e Ásia. Os países não soviéticos só souberam do acidente dias depois, quando a Suécia detectou níveis de radiação muito acima do normal em seu território. “Pela primeira vez, confrontamos a real força da energia nuclear fora de controle”, admitiu, dias depois, o então líder soviético Mikhail Gorbachev.

As populações da Ucrânia e de Belarus sofreram um aumento significativo na incidência de certos tipos de câncer. Pelo menos 56 pessoas morreram em decorrência da explosão. Um estudo da ONU, publicado em 2005, afirma que cerca de quatro mil casos de câncer de tireoide na região, a maioria em crianças ou adolescentes na época do acidente, podiam ser atribuídos à radiação emitida pela explosão. Desses casos, nove crianças morreram. A alta incidência desse tipo de tumor foi incentivada pelo excesso de iodo. “Esse é um elemento que desaparece da natureza em poucos anos e é usado até em tratamentos médicos. O problema é quando a concentração é muito alta, como foi o caso”, diz o físico Diógenes Galleti, da Universidade do Estado de São Paulo (Unesp).

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VIDA
Acima, mulher deposita flores em memorial
que homenageia mortos durante a contenção do desastre

A fortaleza de concreto e chumbo que deveria isolar as ruínas começou a apresentar rachaduras ainda na década de 1990. Elas agora permitem a entrada da chuva. “Essa é a principal ameaça à segurança, já que os elementos podem se misturar à água, contaminar o lençol freático e chegar aos seres humanos e animais”, afirma José Eduardo Martinho Hornos, doutor em física nuclear e professor da Universidade de São Paulo (USP). Uma das preocupações do consórcio alemão e francês responsável pela construção – toda de metal – é justamente que ela seja à prova d’água.

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Cientistas medem nível de radiação
do solo a fim de se preparar para o caso
de uma nova tragédia

Quando ficar pronta, talvez em 2015, a expectativa é de que seja a maior estrutura móvel no mundo. Isso se o custo não se tornar proibitivo até lá. Desde 2007, as estimativas de gastos só aumentam. O orçamento inicial era de cerca de 380 milhões de euros (R$ 874 milhões), mas foi elevado graças às exigências de segurança numa obra desse porte, segundo autoridades ucranianas. O projeto é financiado pela União Europeia e pelos governos do G8 – grupo do qual a Rússia faz parte. Ainda assim, a antiga sede da União Soviética prometeu apenas 1% do custo total (23 milhões de euros, ou cerca de R$ 52 milhões). Metade dos fundos prometidos virá de outros países europeus.

Passado o pânico de Chernobyl, a energia nuclear deixou de ser vilã. Muito da imagem negativa se deve ao acidente, mas também ao terror de armas como as bombas que devastaram Hiroshima e Nagasaki na Segunda Guerra – que dependem de uma tecnologia diferente da usada para gerar energia. Um dos fundadores da organização ambientalista Greenpeace, Patrick Moore, é um dos entusiastas da geração de eletricidade com reatores. O que os defensores alegam – e é verdade – é que essa fonte energética não emite carbono. Seu único problema é a destinação do combustível nuclear, que tem de ser estocado por séculos até que não ofereça perigo. Cada vez mais, porém, aumenta o reaproveitamento do combustível atômico, o que diminui a necessidade de retirar mais minério da natureza e ameniza o problema do armazenamento.

Usinas como Angra I e II e a maioria das que estão em atividade no planeta usam água durante o processo de geração de energia. Chernobyl usava carbono – que é inflamável e foi fundamental para que o fogo se alastrasse. O acidente mais grave em uma usina como as brasileiras – conhecidas como PWR (sigla em inglês para Reator de Água Pressurizada) – aconteceu em Three Mile Island, nos Estados Unidos, em 1979. A explosão não matou ninguém e a usina foi isolada, tornando o prejuízo meramente financeiro. Muito diferente de Chernobyl, acidente que ceifou vidas e produz sequelas na saúde dos moradores da região até hoje. Para compensar, essas vítimas contam com pouco mais do que uma mesada do governo russo equivalente a R$ 115.
 

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