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Um dinossauro na contramão

Fóssil chinês mostra que a transformação dos répteis em aves teve o dedo do acaso e foi mais complexa do que se imaginava

Um dinossauro na contramão

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BIZARRO
Espécie (à esq.) encontrada por pesquisadores (abaixo)
tinha um dedo em cada pata

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Um dinossauro do tamanho e peso de um papagaio deixou os paleontólogos intrigados na semana passada. Desenterrados na China, perto da fronteira com a Mongólia, os ossos fossilizados revelaram que o animal de mais de 75 milhões de anos, um parente próximo do tiranossauro e do velociraptor, tinha apenas um dedo em cada pata dianteira. Esse grupo, dos terópodes, é conhecido por ter dado origem às aves modernas. Daí o estranhamento com a nova espécie, batizada de Linhenykus monodactylus.

“O número de dedos desse grupo diminuiu durante sua história evolucionária”, disse à ISTOÉ Jonah Choiniere, do Museu de História Natural de Nova York, responsável pelo achado. “Os mais primitivos tinham cinco e o número foi sendo gradualmente reduzido para três na maioria deles, inclusive nas aves.” Desses três dedos, geralmente um era maior que os outros dois. Especialistas acreditavam que esses animais usavam o grande para cavar e, por isso, ele foi ficando mais forte ao longo do tempo. Os outros, por falta de uso, ficaram menores e eventualmente sumiram.

O dedo que restou ao Linhenykus, porém, não é esse mais vigoroso. É mais uma questão sobre a qual os paleontólogos terão de se debruçar. “Pesquisas recentes, porém, já haviam mostrado que parentes desse espécime são menos próximos das aves do que outros, como o velociraptor”, diz Choiniere, que publicou a descoberta na revista especializada “PNAS”.

O chefe do estudo, Xung Xi, da Academia Chinesa de Ciências, diz que o animal provavelmente se alimentava de formigas e cupins. Sua grande velocidade era o artifício que tinha para se livrar de predadores. Para o paleontólogo Alexander Kellner, do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a descoberta é mais uma demonstração de que a evolução não segue uma rota determinada. “O que se esperava é que uma forma intermediária como essa tivesse três dedos, nunca um único”, diz. “A questão é bem mais complexa do que se supunha.” Choiniere concorda. “É um dinossauro extremamente estranho, ele não necessariamente nos ajuda a entender a relação entre esses animais e as aves.” Tudo leva a crer que assim é a evolução: quando parece que o elo perdido foi encontrado, um toque do acaso muda toda a história.

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