Cultura

Proletário de casaca

Friedrich Engels, o milionário que dava dinheiro para Karl Marx pregar o comunismo, era um homem incomum - não gostava de trabalhar, bebia muito e dava festas em homenagem ao seu próprio bigode

Proletário de casaca

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POLÍTICA E BOEMIA
Biografia revela as noitadas, insolências,
brigas e manias de Friedrich Engels
 

Com uma prosa divertida, analítica e enriquecida com episódios indiscretos da vida de um célebre comunista, o historiador britânico Tristram Hunt sacode a poeira secular que envolve a esmaecida imagem em preto e branco desse senhor alemão barbudo e sonolento chamado Friedrich Engels (1820-1894) e o retrata de forma vívida na recém-lançada biografia “Comunista de Casaca” (Record). O livro explora com humor, e sem ser leviano, as contradições intrínsecas à condição de Engels: advogado e magnata da indústria têxtil que defendia o fim da propriedade privada, praticante entusiasmado da caça à raposa (esporte caríssimo da burguesia inglesa), excêntrico que ensinou o seu cão a latir ao ouvir o comando: “Pegue o burguês”. Autor do histórico lema revolucionário “Trabalhadores do mundo todo, uni-vos”, desfecho do “Manifesto do Partido Comunista”, Engels foi amigo leal e também mecenas do pensador alemão Karl Marx, a quem bancou ao longo de quatro décadas, além de ajudar na criação de suas filhas e assumir a paternidade de um filho bastardo do companheiro para protegê-lo de um escândalo social.

Ao investigar a formação moral e intelectual do jovem Engels, o autor aproxima-se da trajetória pessoal do seu biografado, descrevendo o seu estilo de vida peculiar e suas aventuras etílicas, políticas, sexuais e profissionais. Um marco em sua vida se deu aos 22 anos, quando foi enviado pela família à Inglaterra para tomar conta dos negócios em Manchester. Essa mudança lhe custou um sacrifício enorme: deixar bebedeiras e boemia e trabalhar como “um escravo”, segundo dizia. A vida de magnata, no entanto, não devia ser tão dura assim, já que nunca impediu suas fugidas para Paris em busca de diversão. “Se as francesas não existissem, não valeria a pena viver”, escreveu a Marx em uma dessas escapadas. Ele manteve relações estáveis com três mulheres, mas gostava de participar de bacanais e de pagar por sexo.

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FAMÍLIA
Marx (à dir.), com sua esposa,
e Engels (à esq.) com as duas filhas
do amigo: foi ele quem ajudou a criá-las
 

O trabalho tampouco o fez abandonar o costume de tomar seus drinques ao longo do dia.“Temos um estoque de cerveja no escritório; embaixo da mesa, atrás do fogão, atrás do guarda-louça, por toda a parte há garrafas de cerveja”. Também manteve os cochilos após o almoço: “Sempre foi desagradável ir correndo para a mesa de trabalho depois da refeição, quando a gente sente uma preguiça danada (…) fixamos duas belas redes no sótão para a sesta.” O autor frisa que foi nessa temporada em Londres, entre cochilos e cervejas, que Engels escreveu o clássico “A Condição da Classe Trabalhadora na Inglaterra em 1844”, livro em que ele reporta como viviam as famílias operárias no início da industrialização inglesa – isso sem nunca descuidar do estilo bon vivant e do jeito de dom-juan que o faziam um homem extremamente vaidoso. De sua temporada militar, que abominou, tem uma boa recordação: o fascínio que exercia ao vestir o seu uniforme cintilante. Descreveu-o em detalhes em carta à irmã Marie. “Azul com colarinho preto adornado com duas listras douradas e debruns pretos com listras amarelas ao lado de rolotês vermelhos (…).”

O bigode também era assunto sério. Engels adotou o seu uso como uma forma de subversão aos costumes, já que em meados do século XIX a exibição de pelos no rosto era associada a grupos radicais e rebeldes. Gozador, ele chegou a organizar uma festa do bigode, como revela: “Tivemos uma noite do bigode na adega da prefeitura. Convidei todos os homens jovens, que tinham ­condição de usar um bigode como o meu, dizendo que havia chegado a hora de escandalizar os filisteus (referência à burguesia de “espírito acanhado e vulgar”). O zelo pelo bigode foi sucedido pelos cuidados com a barba. Provocador, Engels cultivava um ar insolente e era pouco permeável a críticas. Quando se ofendia, marcava um duelo, como se lê na carta a Marx, em 1852. “Tive dois duelos aqui (Londres) nas últimas quatro semanas. O primeiro adversário retirou a palavra insultuosa ‘estúpido’, que me dirigiu depois que lhe dei um soco no ouvido. Lutei com um segundo ontem e lhe deixei uma bela marca acima da sobrancelha, de alto a baixo na testa, um golpe primoroso.”

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