Comportamento

Meditação no trabalho

Tendência na Europa e nos Estados Unidos, que criaram até salas para meditar dentro das empresas, a prática se espalha entre profissionais brasileiros

Meditação no trabalho

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MUDANÇA
Charles Betito comanda sua equipe com menos ansiedade e mais gentileza

 

Era uma vez um rei que queria atingir a iluminação, mas não podia deixar de lado suas obrigações. Certo dia, ele perguntou a um monge o que deveria fazer para ter uma vida espiritual intensa sem abrir mão de seu posto. O religioso, então, lhe respondeu, sem titubear: medite. De posse das técnicas transmitidas pelo guru, o monarca ensinou seus súditos a meditar e todo o reino foi contaminado por uma atmosfera de benevolência, respeito e atenção pelo outro. A lenda tibetana sobre o reino de Shambala, que muitos acreditam ainda existir em algum lugar perdido no Himalaia, inspirou o monge budista Chögyam Trungpa a criar, nos anos 70, um método de meditação para pessoas como o rei dessa história – ocupadas, sem nenhum interesse em levar uma vida reclusa e abnegada, mas preocupadas com a qualidade de suas vidas. Essa foi a semente para um movimento que só cresce no Exterior e já começa a se instalar no Brasil. Grandes executivos e respeitadas corporações perceberam como o ato de meditar pode melhorar a dinâmica dos ambientes corporativos e a vida de cada profissional (leia quadro). Nos Estados Unidos e na Europa, por exemplo, é cada vez mais comum as companhias criarem salas próprias de meditação. Algumas equipes fazem até minutos de silêncio antes de uma reunião, como forma de fazer com que os participantes fiquem menos discursivos e mais atentos ao que está sendo discutido.

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VANTAGENS
A meditação ajudou o empresário Marcus Elias a se
entender melhor, também no ambiente profissional

 

O Brasil ainda não chegou a esse nível de requinte, mas já tem seguidores aplicados. É o caso do empresário Charles Betito Filho, 33 anos, frequentador do Centro de Meditação Shambala, em São Paulo. Ele flertava com o tema desde que começou a fazer artes marciais, mas somente neste ano incorporou a prática de forma sistemática ao seu dia a dia. A primeira transformação sentida foi a valorização do agora. “A nossa tendência é de fazer tudo no automático, lembrar o passado feliz, idealizar o futuro perfeito e ignorar o presente”, diz. “Com a meditação, a única coisa que importa é o que você está fazendo neste exato momento.” Além de uma maior atenção em suas tarefas, Betito Filho notou uma melhora na qualidade da relação com seus funcionários. “O trato muda, você sai daquele padrão de ansiedade no qual tenta adivinhar o que o outro vai dizer.” Fazendo um balanço geral, o escritório ficou impregnado de gentileza, garante ele.

Menos ansiedade, mais concentração, capacidade de lidar com o estresse e com a competitividade. Para a monja Coen, do zen-budismo (linha japonesa), esses são apenas alguns dos benefícios para a vida profissional de quem medita. “Lembrando que meditar não é ausentar-se, pelo contrário, é desenvolver presença absoluta”, destaca. York Stillman, diretor do Centro Shambala, acrescenta mais um item à lista da monja, a clareza dos pensamentos. “Com a mente mais clara, há menos desentendimentos, mais opções e mais criatividade.” A meditação também ajuda a recuperar o verdadeiro significado do trabalho, a felicidade de servir o outro. É o que prega dom Laurence Freeman, monge beneditino e presidente da Comunidade Mundial de Meditação Cristã. Segundo o religioso, a delicadeza nas relações e a atenção plena aos colegas, clientes e fornecedores deveriam ser a base da vida profissional, mas são atitudes que caíram em desuso conforme a pressa, a competição e o estresse dominaram a cena. “Meditar é uma forma de combater os infelizes padrões profissionais do mundo moderno”, acredita Freeman. Há mais de 20 anos, ele é convidado por grandes empresas para ensinar os funcionários a meditar.

O brasileiro Marcus Elias, dono da Parmalat, é um pioneiro até para os padrões internacionais. Adepto da meditação há 25 anos, bem antes de ela se tornar moda, o empresário garante que os efeitos da técnica vão muito além do trabalho – meditar o ajudou a entender melhor sua natureza e a saber como lidar com ela. “Sou muito acelerado e impaciente, faço as coisas depressa. Mas hoje já sei que não preciso nem brigar com meu jeito de ser nem sair atropelando os outros”, explica.

Existem muitas maneiras de praticar a meditação, ligadas a religiões ou não, em grupo ou individualmente, com os olhos fechados ou abertos, com mantra ou sem nenhum som. Mas todas têm a mesma essência: tornar a mente mais calma e concentrada. Para quem ainda acha a técnica muito complicada, vale ter em mente duas dicas da monja Coen. A primeira é lembrar que a respiração profunda e suave é a base de tudo. A segunda é fazer de cada dia uma excelente jornada. Afinal, diz ela, sua vida está onde você está.

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