Comportamento

Aprendendo a gastar

Projeto piloto introduz educação financeira em 450 escolas públicas de ensino médio em cinco Estados do País

Aprendendo a gastar

chamada.jpg
PRÁTICA
Ingra da Silva já ajuda a montar o orçamento de casa

 

A paulistana Ingra da Silva, 16 anos, aluna do ensino médio da Escola Estadual Paulo Novaes de Carvalho, na zo­na leste de São Paulo, tem mais uma razão para prestar atenção às aulas de matemática, física, história e português. Desde agosto, os exercícios des­sas disciplinas passaram a tratar de situações comuns à vida financeira da garota e de sua família. Nos testes de matemática, por exemplo, as contas tratam de juros, poupança e investimentos. Nos de história cobra-se a compreensão não apenas política e social de uma época, mas também econômica, despertando o interesse da menina pela economia atual do País. Essa ampliação do enfoque do ensino de Ingra se explica: a escola da qual ela faz parte participa do Programa Educação Financeira nas Escolas.

G_Educacao-financeira.jpg

 

Tido como a maior experiência de educação financeira do País, o programa é fruto de parceria entre órgãos como o Ministério da Educação, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a BM&FBovespa e o Instituto Unibanco. O objetivo é testar mé­todos de educação financeira em 450 escolas públicas de cinco Estados e, a partir da experiência, criar um mapa com diretrizes para a ampliação do tema. Mas, como em terreno fértil até os testes vingam, há exemplos práticos de sucesso do programa recém-iniciado. “Já apliquei o que apren­di”, conta Ingra, que usou uma tabela-modelo impressa no material didático do projeto para programar as despesas da família, balanceando custo e receita.

Embora produtiva tanto para o estudante quanto para a família, a educação financeira é novidade na rede pública. Não devia ser. Nos últimos anos o Brasil viu explodir seu mercado de crédito com a expansão e o barateamento dos empréstimos e a multiplicação das opções de investimento (leia quadro na página 78). Em um ambiente como esse, a educação financeira já na infância surge como ferramenta indispensável. “Mesmo com estabilidade econômica, o aumento da renda, a ampliação do crédito, a carência na área de educação financeira pode dar problemas”, diz Fábio Moraes, diretor da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), que, com a Federação Latino-Americana de Bancos (Felaban), organiza o primeiro congresso regional de educação financeira, marcado para acontecer entre os dias 21 e 22, em São Paulo. Na programação, uma das mesas tratará exclusivamente da educação financeira para jovens, mas também deve abordar a importância de uma educação básica benfeita que permita a introdução dos conceitos financeiros. Afinal, de nada adianta ensinar juros a quem não sabe multiplicar.

Nesse sentido, a iniciativa privada também ajuda a preparar o aluno. Segundo a Febraban, os mesmos bancos que defendem a educação financeira gastam cerca de R$ 200 milhões anualmente com o fomento da educação básica e ampla por meio de instituições como a Fundação Bradesco e o Itaú Criança, entre outras. Bem cumprida, essa fase prepara os pequenos para a educação financeira cada vez mais cedo. “Cognitivamente, uma criança com seis anos já está pronta para compreender as primeiras lições de finanças”, lembra Neide Nofis, coordenadora do curso de psicopedagogia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

img.jpg
PROFESSOR
Raul Schmidt, 9 anos, começou as aulas aos 6 e hoje,
além de poupar, fiscaliza os gastos da mãe, Mirza de Luca

 

Foi com essa idade que Raul Schmidt, hoje com 9 anos, começou as aulas de educação financeira na Escola Castello Branco, no bairro do Tatuapé, zona leste de São Paulo. A mãe do menino, Mirza de Luca, diz que, antes das aulas, Raul, como qualquer criança, queria comprar tudo. Agora o menino faz as contas, sabe identificar o que compensa e até fiscaliza os gastos da mãe. “Outro dia ele somou os valores das refeições que fiz fora de casa e disse que eu estava gastando muito com isso”, diz Mirza, sem conter as risadas. Raul aprendeu com módulos do programa The Money Camp, trazido para o Brasil pela empresária Silvia Alambert e aplicado na escola particular em que estuda. Com associações ao universo infantil e adolescente, a educação financeira cresce em importância e abrangência. O programa piloto nas escolas públicas de ensino médio é um marco no processo de expansão da disciplina. E a expectativa de sucesso da iniciativa é tão grande que já está em desenvolvimento uma versão do programa para o ensino fundamental, a ser lançada em 2011. Acostume-se: em breve seu filho o ajudará no orçamento de casa, como já faz Ingra da Silva.

G_1.jpg