Cultura

A lucidez e a loucura de Lima Barreto

Às vésperas da comemoração dos 130 anos do escritor, são lançados seus contos inéditos e relatos de sua passagem pelo hospício

A lucidez e a loucura de Lima Barreto

img1.jpg
PAPÉIS AVULSOS
Barreto escrevia em laudas doministério e no
verso de folhasdatilografadas

 

Branco, 33 anos, solteiro, brasileiro, empregado público. Diagnóstico: alcoolismo. Essa é a descrição do escritor carioca Lima Barreto (1881-1922) num prontuário hospitalar datado de 18 de agosto de 1914. Esse registro médico inédito, relativo à primeira internação do autor do romance “O Triste Fim de Policarpo Quaresma” está sendo publicado pela primeira vez na reedição de luxo dos seus livros “Diário do Hospício e Cemitério dos Vivos” (Cosac Naify). O diário reúne as impressões de Lima Barreto sobre os dois meses que passou no Hospício Nacional dos Alienados no Rio de Janeiro, entre dezembro de 1919 e fevereiro de 1920. A segunda obra, uma novela inacabada, trata em forma de ficção, das mesmas experiências vividas por ele nessa instituição manicomial. Outra foto, divulgada há seis anos, também ilustra o volume: é o retrato de Barreto por ocasião dessa segunda internação. O rosto encovado e os cabelos grisalhos de mulato não deixam dúvida que o estrago em sua saúde foi grande. Agora, sua cor é definida como parda e a profissão, declarada como a de jornalista.

img.jpg

 
“Tirando dele a brutalidade do acorrentamento, das surras, a supertição das rezas,
o nosso sistema de tratamento da loucura ainda é o da Idade Média: o sequestro”

Nascido em 13 de maio de 1881, ou seja, há exatos sete anos antes da Abolição da Escravatura, Lima Barreto era filho de um escravo e de uma filha de escrava agregada e já era escritor quando foi admitido como branco na triagem do sanatório. Esses e muitos detalhes sintomáticos da República Velha que Barreto tanto criticava estão vindo à luz nesse momento porque no ano que vem se comemoram 130 anos de seu nascimento – e uma enxurrada de livros de sua autoria estão sendo relançados. Afora o volume duplo com suas “memórias do cárcere”, publicadas originalmente em 1953, um outro lançamento merece todos os holofotes. Trata-se dos “Contos Completos de Lima Barreto” (Companhia das Letras), que reúne seus escritos editados em vida e postumamente, além de narrativas inéditas que estavam guardadas, em notas de próprio punho, na Fundação Biblioteca Nacional, conjunto organizado pela historiadora Lilia Moritz Schwarcz. Ao todo, são 14 contos, alguns apenas esboçados, transcritos de anotações feitas em tiras de papéis timbrados do Ministério dos Negócios da Guerra, onde Lima Barreto trabalhou, sendo aposentado por invalidez . O conto inacabado “A Nova Classe dos Cirurgiões” é uma amostra de sua linguagem viva e coloquial, já distante da escrita empolada dos seus contemporâneos e que mais tarde viria a influenciar os modernistas. Fala de um barbeiro que salta da Rua do Ouvidor para a Avenida Central. Ou seja: foi um dos que se enriqueceram no ambiente ufanista reinante. Eis a descrição do homem, anterior à mobilidade social: “Ele é um tipo distinto, asseado. É italiano, calvo, magro, usa o bigode raspado à americana e não exala nunca o famoso hálito de alho que foi a causa de causa de grande aborrecimento para Thackerey”. Um retrato bem diferente do que faz dos loucos que mais tarde dividiria o espaço no Hospício de Alienados, que incluía também “imigrantes italianos, portugueses, espanhóis” ou “negros roceiros (…) tipógrafos, marceneiros” aos quais eram dados um traje para “cobrir a nudez”. Detalhe: o pai de Lima Barreto era tipógrafo e também foi declarado louco pela medicina da época.

“Os loucos são de proveniência mais diversa. São os negros roceiros,
copeiros, cocheiros, moços de cavalariça, trabalhadores braçais”

 

img3.jpg
MANICÔMIO
Corredor do Hospício Nacional dos Alienados, no Rio


img2.jpg

Leia um trecho do primeiro capítulo do livro,  Diário do Hospício e Cemitério dos Vivos :

A MINHA BEBEDEIRA E A MINHA LOUCURA

Ao pegar agora no lápis para explicar bem estas notas que vou escrevendo no Hospício, cercado de delirantes cujos delírios mal compreendo, nessa incoerência verbal de manicômio, em que um diz isto, outro diz aquilo, e que, parecendo conversarem, as ideias e o sentido das frases de cada um dos interlocutores vão cada qual para o seu lado, eu me lembro muito bem que um amigo de minha família, médico ele mesmo de loucos,27 me deu, logo ao adoecer meu pai, o livro de Maudsley, O crime e a loucura.28 A obra me impressionou muito e de há muito premedito repetir-lhe a leitura. Saído dela, escrevi um decálogo para o governo da minha vida; entre os seus artigos havia o mandamento de não beber alcoólicos, coisa aconselhada por Maudsley, para evitar a loucura. Nunca o cumpri e fiz mal. Muitas causas influíram para que viesse a beber; mas, de todas elas, foi um sentimento ou pressentimento, um medo, sem razão nem explicação, de uma catástrofe doméstica sempre presente. Adivinhava a morte de meu pai e eu sem dinheiro para enterrá-lo; previa moléstias com tratamento caro e eu sem recursos; amedrontava-me com uma demissão e eu sem fortes conhecimentos que me arranjassem colocação condigna com a minha instrução; e eu me aborrecia e procurava distrair-me, ficar na cidade, avançar pela noite adentro; e assim conheci o chopp, o whisky, as noitadas, amanhecendo na casa deste ou daquele.