Comportamento

A reforma da ONU

Sede da entidade passa por obras de modernização que custarão R$ 3,2 bilhões, mas mudanças políticas estão longe

A reforma da ONU

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MUDANÇA
Hoje tomada por máquinas (acima), a praça
voltará a ser como era originalmente (abaixo)

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Quem visitar a cidade de Nova York, nos Estados Unidos, nos próximos cinco anos terá uma surpresa ao passar diante do conjunto de prédios da Organização das Nações Unidas (ONU), às margens do East River. Guindastes, andaimes e operários ofuscarão a fachada do principal edifício e de seus anexos, que permanecerão vazios até 2015. Até lá, o complexo criado em 1952 por ícones da arquitetura moderna, como o brasileiro Oscar Niemeyer e o franco-suíço Le Corbusier, passará pela primeira grande reforma em 58 anos de história. “A boa arquitetura sobrevive ao tempo”, disse à ISTOÉ o arquiteto e diretor executivo do projeto de reforma, Michael Adlerstein. “Mas um prédio como esse funciona plenamente, sem reformas, por no máximo 40 anos – já estava na hora de intervir”, reconhece.

Orçada em R$ 3,2 bilhões a serem bancados pelas 192 nações filiadas – o Brasil contribuiu com 0,876%, o equivalente a R$ 27,7 milhões –, a reforma mudará pouco a fachada da construção, que terá os vidros em tom esverdeado substituídos e o revestimento externo em pedra clareado. Internamente, as mudanças serão mais expressivas. Toda a fiação, que soma cerca de 43 quilômetros, e a parte hidráulica do prédio, que tem 13,5 quilômetros de dutos, serão trocadas. As janelas ganharão uma segunda camada de vidro interna para fortalecer o isolamento térmico. Das 2,4 mil salas, 1,9 mil terão as paredes derrubadas, deixando apenas 500 salas fechadas e o resto da área livre para ser usado de forma mais fluida e dinâmica. Dinamismo que, ironicamente, não combina com a morosidade política que marca o órgão atualmente. Criada para ser um fórum de diálogo internacional no final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a instituição hoje vive engessada e parece avessa a reformas. “A ONU ainda trabalha com modelos diplomáticos herdados da Guerra Fria”, diz Paulo Resende, coordenador do núcleo de análise de conjuntura internacional da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “É evidente que o Conselho de Segurança deve ser ampliado, senão fortalecido, com a participação dos Estados latino-americanos”, disse à ISTOÉ Oscar Niemeyer, célebre não só pela arquitetura, mas pelas associações que faz de seu ofício com a política.

No sentido de associar arquitetura com política, é justo, pelo menos, sugerir que o empurrão para uma mudança institucional da ONU possa vir dessa reforma. Desde o começo da intervenção, os seis mil funcionários do órgão se mudaram, temporariamente, para prédios vizinhos ao da sede da organização. Para os mais otimistas, ainda que entre os realocados não figurem membros das delegações internacionais, o novo ambiente de convívio pode ser o catalisador de mudanças institucionais. Quando as obras acabarem, espera-se que ideias para modernizar a ONU brotem dos escritórios mais integrados e até do novo jardim, hoje ocupado por máquinas e que, ao final das obras, voltará a sua forma original. “Trata-se de um complexo que, nos anos 1950, simbolizava o triunfo do diálogo no mundo livre”, lembra Mario Figueroa, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie, em São Paulo, e arquiteto do Estúdio América. Mas desde 1950, quando só havia 55 nações filiadas, muita coisa mudou. Arquitetonicamente, a ONU já evolui em direção a importantes mudanças. Institucionalmente, porém, parece seguir patinando.

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