Comportamento

A volta de um ícone

O homem que revolucionou o design de móveis no Brasil volta às pranchetas depois de 45 anos sem criar

A volta de um ícone

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CRIAÇÕES
Zalszupin e suas poltronas Dinamarquesa
(acima) e Verônica (abaixo)

 

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Aos 89 anos de idade, Jorge Zalszupin está de volta ao trabalho. Após mais de quatro décadas sem conceber nenhum móvel, o arquiteto polonês, que aportou no Brasil em 1949, acaba de lançar uma nova peça. Feita a pedido da designer mineira Etel Carmona, a poltrona Verônica, uma homenagem à filha homônima, exibe as características que fizeram a fama de seu criador: traços curvilíneos, acabamento impecável e a escolha de nobres madeiras brasileiras. Contemporâneo de ícones como Sérgio Rodrigues e Zanine Caldas, Zalszupin foi um dos fundadores do design moderno do País, ao trazer nos anos 1950 e 1960, propostas e desenhos inovadores, que fugiam da art déco francesa. Por isso, influenciou toda uma geração. Também por isso sua volta ganha relevância num setor em que o Brasil é hoje referência internacional.

A época de criação mais intensa de Zalszupin, entre 1959 e 1969, foi marcada pela fundação do L’Artelier, estúdio de design que produzia artesanalmente móveis modernos e sofisticados. “Ele revolucionou o desenho moveleiro no País”, diz a arquiteta carioca Lia Siqueira. “Suas peças evidenciam a sensualidade brasileira, além de uma verdadeira intimidade e generosidade com a madeira”, diz o arquiteto Carlos Motta, cujo trabalho destaca-se pelo uso de madeiras nacionais.

O interesse de Zalszupin pelo Brasil surgiu por causa de Oscar Niemeyer. “Conheci o trabalho dele em uma revista francesa de arquitetura e pensei que aqui seria um bom lugar para jovens profissionais”, conta. Ao desembarcar em solo brasileiro, Zalszupin passou a projetar residências e móveis para clientes abastados, especialmente no Jardim Europa, em São Paulo. A partir de 1965 concentrou-se nas casas e em 1990 decidiu aposentar a prancheta de vez. A confortável renda conquistada durante anos de trabalho permitiu que o arquiteto partisse para um retiro de dez anos na França. A volta ao Brasil e à criação de móveis foi motivada pela saudade. “Durante 45 anos não tive vontade de desenhar nenhum móvel”, diz. Porém, a inspiração para a Verônica veio como um instinto e uma hora depois já tinha a peça pronta no papel.”

Uma das mais emblemáticas criações de Zalszupin, a poltrona Dinamarquesa, que completou 50 anos em 2009, foi também sua primeira peça a ser produzida em série e até hoje conquista compradores de todo o mundo. Reeditada desde 2004 pela loja Etel Interiores, seu valor varia de R$ 8 mil a R$ 12 mil. Como nem todos podem pagar esse montante por uma peça de reconhecido design e qualidade, as cópias não autorizadas se multiplicam em lojas de decoração pelo País. Questionado sobre o que pensa das versões piratas de sua Dinamarquesa, Zalszupin responde: “Como dizia Coco Chanel, ser copiado é o mais alto grau de reconhecimento.”

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