Medicina & Bem-estar

A falta dos medicamentos de alto custo

Falhas na distribuição deixam sem remédios portadores de doenças graves, como artrite reumatóide e lúpus

A falta dos medicamentos de alto custo

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PREJUÍZO
Sem os remédios,
doentes tiveram sintomas agravados

Só na quarta-feira 29, Arleide de Melo, 54 anos, ouviu a aguardada notícia: chegara o medicamento que ela usa para o controle da artrite reumatoide. Foram dois meses de espera com ligações diárias para a farmácia do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), especializada no fornecimento de medicamentos de alto custo, assim chamados ou porque têm alto custo unitário ou porque são de uso prolongado ou definitivo. O reflexo dos 60 dias sem medicação já era sentido pelo corpo: dores nos ombros, cotovelos e joelhos, e seus dedos dos pés entortando – consequências da interrupção do tratamento. Ela não foi a única a ficar sem o remédio. Vários pacientes que usam o Adalimumabe tiveram problemas para obter a droga nas últimas semanas.

A explicação para o sumiço do Adalimumabe das farmácias, todavia, segue insatisfatória. No Rio de Janeiro e em São Paulo as secretarias de Saúde relataram o atraso, mas o creditaram ao governo federal, responsável pelo programa de distribuição desta categoria de drogas. O Ministério da Saúde, porém, garante que o abastecimento, por parte da União, está normal. “As entregas foram feitas nas datas previstas e não recebi comunicado de falta de medicamentos”, afirmou José Miguel do Nascimento Júnior, diretor de assistência farmacêutica do ministério.

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Quem perde nesta confusão é o cidadão, que tem o tratamento interrompido. “Sem o remédio, a artrite reumatoide já controlada volta”, diz a reumatologista Evelin Goldenberg. E, sem a distribuição gratuita pelo governo, dificilmente um paciente conseguiria manter os cuidados. No caso do Adalimumabe, por exemplo, uma ampola custa R$ 7.834 e, em média, os doentes usam duas por mês. “Manter a medicação sem o subsídio do governo é inviável”, fala Eloisa Bonfá, da Faculdade de Medicina da USP. Só no hospital da universidade, 90 pacientes sofreram com o desabastecimento.

Os problemas de acesso aos medicamentos não se restringiram ao Adalimumabe. ISTOÉ apurou, em São Paulo, falhas durante o mês de setembro na distribuição do Inflixmab, Etanercepte e Hidroxicloroquina, usados para problemas reumáticos, Tacrolimo, para transplante de rim ou fígado, Azatioprina, indicado em vários transplantes, lúpus e outras doenças, e Leuprorrelina, para disfunções da glândula hipófise e endometriose. Dessa lista, Adalimumabe, Inflixmab, Etanercepte e Tacrolimo tiveram uma alteração no seu sistema de compras. Antes adquiridos pelos governos estaduais, eles passaram a ser obtidos pelo Ministério da Saúde. O objetivo era negociar melhores preços com as indústrias farmacêuticas, permitindo que, com o recurso economizado, outras doenças fossem contempladas pela lista de medicamentos de alto custo.

No caso da Leuprorrelina, o laboratório responsável pelo fornecimento da droga, a farmacêutica Sandoz, recolheu o medicamento após constatar a possibilidade de haver quantidades diferentes do princípio ativo. Isso teria levado ao desabastecimento. Segundo a Secretaria de Saúde de São Paulo, a orientação é usar outra droga, a Gosserrelina. Mas a mudança não é tão simples assim. “Para substituí-lo nos casos em que é usado como bloqueador da puberdade, é preciso fazer novos exames para determinar quando as doses serão administradas”, observa Ruth Clapauch, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia.

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ESPERA
Luiza ficou um mês sem o remédio que 
a impede de menstruar antes  da hora

Para evitar problemas, a administradora Izabel Diogo, 38 anos, gastou mais de R$ 500 para garantir a injeção que sua filha Luiza, 8 anos, deveria tomar no último dia 30 – e que não recebeu do governo. A menina tem uma disfunção da hipófise, que, se não tratada, pode fazer com que ela menstrue a qualquer momento. Isso comprometeria sua estatura final, além de fazê-la sofrer os incômodos de ter um corpo de púbere ainda criança. “E nem me ofereceram outra opção de droga”, conta Izabel.

Atrasos como esses são inadmissíveis. “A maioria dos tratamentos é para pacientes em estágio avançado de ­doenças ou que têm moléstias raras”, avalia Vera Luiza, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública. Na sua opinião, é certo que o acesso aos medicamentos de alto custo no Brasil está em um estágio avançado em relação a outros países do mesmo porte, mas ainda pode ir além. Vera defende a necessidade de ampliação da lista de doenças e remédios contemplados e a criação de ferramentas de controle da distribuição e da entrega dos remédios. Desafios que os próximos gestores federais e estaduais têm pela frente.